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O Sexo da Literatura
Inês Pedrosa


Confesso: só em 1997 me ocorreu que a arte podia ter orientação sexual.
Tinha acabado de publicar um romance que partia de uma paixão secreta entre dois homens, no Portugal dos anos 40 ( Nas Tuas Mãos ) e um escritor que admiro teve a simpatia de me telefonar para dizer: “Parabéns! Você escreveu o primeiro romance homossexual português.” Por mais que me esforce (e esforço-me pouco), não consigo ser imune a elogios, e este, embora factualmente injusto – assim de repente, lembrei-me logo de A Sombra dos Dias de Guilherme de Melo e Lunário de Al Berto – , proporcionou-me uma agradável tranquilidade interior. É que, se nenhum escritor gosta de ver escabichadas as suas musas – todos os que conheço cometerão quantos perjúrios forem necessários para libertar as suas personagens de qualquer identificação com seres de carne e osso – , menos ainda gosta de sentir que escreveu algo de inverosímil. Donde, sendo eu heterossexual, confesso que temera que a paixão das minhas personagens soasse a falso a homossexuais de verdade. Posso também confessar que, felizmente, este medo só me atacou depois de publicar o livro (faço os possíveis por censurar ferreamente a minha auto-censura até que os textos estejam impressos). Mas tenho também de confessar que, passados os primeiros efeitos borbulhantes do elogio, voltei a desligar o botão da orientação sexual da arte.
Claro que toda a arte tem sexo, como tem coração, cabeça, estômago, bílis – corpo. Mas parece-me absurdamente redutor – e até humilhante – definir uma obra de arte – seja ela um livro, uma peça musical, uma tela ou um filme – pela orientação sexual nela inscrita ou inscrita no corpo do criador. Não foi por acaso que escolhi para epígrafe inicial do “Nas Tuas Mãos” estes versos de John Ashbery: “(...) Who goes to bed with what / Is unimportant. Feelings are important. / Mostly I think of feelings, they fill up my life / Like the wind, like tumbling clouds / In a sky full of clouds, clouds upon clouds.” Sim, quem vai para a cama com o quê é acessório.
Como acessória é, em se tratando de mulheres escritoras, a questão da chamada “escrita feminina”. Toda a escrita autêntica é simultaneamente masculina e feminina (leiam o prodigioso Orlando de Virginia Woolf). No entanto, não há congresso literário, por esse mundo fora, onde não se junte o mulherio num ghetto para discutir, de mulheres para mulheres, os mistérios fascinantes da “escrita feminina”, enquanto os homens – que fazem parte da Literatura com L maiúsculo, e não de um artesanato Luís Castro (Director da KARNART, Actor, Produtor e Autor) Manifesto Por que variadíssimas razões sinto tão vitalmente necessidade de tomar uma posição pública relativamente às questões dos direitos dos cidadãos marginalizados pelas suas orientações sexuais nas sociedades portuguesa e mundial?Porque sou um deles; desde que me sinto e observo enquanto ser humano que me acompanham visões e anseios relativos a imagens de sexo, sobretudo de sexo masculino. Porque desde cedo percebi que esse desejo, essa vontade, essa apetência, poderiam ser alvo de agressão – física ou emocional –, de exclusão, de vergonha ou de solidão. Porque fui obrigado a viver os principais anos do meu crescimento e da minha educação mimetizado, e agrilhoado a um terrível sentimento de culpa e “pecado”, essa maldita palavra, esse castrante conceito impostor! Porque percebo que o tempo passou e todas as conquistas que me aligeiraram a juventude e lhe deram um colorido especial prometendo uma sociedade mais livre, responsável e justa, desapareceram escorraçadas pelo fenómeno sida e pelo conservadorismo moral que de imediato pululou, a coberto de togas, mantilhas e batinas, qual trepadeira oportunista em embondeiro de nobres porte e idade. Porque me cruzo no meu dia-a-dia de criador com dezenas de homossexuais de diferentes áreas artísticas, apagados, fundidos. E finalmente porque percebo que novas gerações de homossexuais vão brotando no mesmo medo, na mesma vergonha, na mesma castração.Não pretendo com este testemunho-manifesto estafar o já costumeiro e confortável dizer-mal de Portugal, ou afirmar que se o Dantas é português eu quero ser espanhol – dado o crescente número de dantas da minha geração a assumir cargos de importância pública, tão incompetentes e num-olhar-de-palas-apenas-experientes como o escritor que em Almada tanta raiva fazia nascer no início do século passado. Pretendo contribuir para que se repense a sociedade portuguesa ao abrigo de valores reais. Valores de verdade, de justiça e de equidade. Reais! Valores tão básicos como os que tentam hoje proteger o nosso tão violado querido planeta. Não podemos continuar a fechar os olhos às alterações climáticas, a contribuir para guerras manipuladoras, interesseiras e egoístas, a dizer sim à violência doméstica ou ao abuso infantil, a segregar cidadãos pela cor da pele ou pelas opções sexuais, a violar os direitos dos animais, a extinguir espécies animais e vegetais, e a transformar este planeta azul numa imensa esfera cinzenta de poluição e fogo. Abramos os olhos, não sejamos bárbaros. Pode haver ainda tantas gerações à nossa frente!Aos setenta e quatro anos, a mulher adoece. Tem cancro. O homem vai visitá-la todos os dias ao hospital. Um dia, esvaída de forças, ela pede-lhe que se aproxime. Tem algo para confessar. Algumas décadas antes, durante uma viagem de negócios dele, recebera em casa uma... bem, uma namorada. Amante é uma palavra muito feia, não é? E, anos mais tarde, outra. Ele lembrava-se daquela amiga que estava sempre lá em casa? Sim, aquela que ele dizia que estava sempre lá em casa qualquer dia quase que podia ir para lá morar. Pois. Foi um amor, uma ternura que durou anos. Ela bem sabia que não era lá muito próprio, provavelmente nem amor era, mas... Ele de qualquer modo que não se importasse, afinal o que podiam duas mulheres fazer juntas que fosse assim tão grave? E, agora que estava a morrer, sentia-se feliz por poder dizer-lhe, tirar aquilo do peito, partilhar com ele algo que, afinal, era importante para ela mas não se intrometia entre eles, entre o seu casamento.Por um momento, o homem ficou sentado, a olhar para a mulher. Depois, olhou para o vazio. regional chamado “literatura masculina” – ocupam os anfiteatros de honra, debatendo as Grandes Questões da Literatura do Nosso Tempo. Penso, por conseguinte, que o acantonamento dos/as escritores/as homossexuais pode ser-lhes efectivamente prejudicial, como tem sido para as mulheres “o feminino”. Além do mais, esta estratégia discriminatória acaba sempre por favorecer, por efeito de grupo, alguns artistas de menor qualidade que, fora destes sub-grupos, nem seriam considerados – o que, evidentemente, funcionará como discriminação suplementar (negativa) dos artistas que pensam que a sua arte não se cinge às questões de género e/ou orientação.
No actual estado das coisas, parece-me útil que as pessoas assumam tranquilamente a sua orientação sexual, ou o seu género. De forma mais ou menos indirecta, a arte é contaminada pela nossa vida e pelas nossas experiências. É inevitável que a obra artística de uma mulher traduza – entre outras coisas – a sua perspectiva sobre o mundo, de acordo com os preconceitos a que o mundo a quis confinar e contra os quais ela teve de lutar. Idem para os homossexuais. Estas questões deveriam, obviamente, integrar o discurso crítico – mas, em Portugal, raramente integram. O que é particularmente curioso, se pensarmos na quantidade – e qualidade – de poetas homossexuais existentes no país. Muitas vezes, são os próprios poetas a rejeitar com veemência o rótulo de “homossexuais”. Compreendo-os. Se me definissem como “romancista heterossexual” ficava furibunda – como fico quando me perguntam se a minha escrita é “feminina”. Mas a forma de expressão dos afectos e da sexualidade, bem como o território a partir do qual se escreve, são aspectos centrais para a compreensão de qualquer obra de arte.


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