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“As lésbicas não são discriminadas”
A luta de lésbicas e gays1 é, em primeiro lugar, uma luta contra as várias formas de discriminação e por uma efectiva igualdade de direitos, que seja explícita na Lei e implícita na sociedade. Se a necessidade desta luta parece a muit@s cada vez mais evidente, ela não deixa de ser muita vezes questionada, mesmo por aqueles e aquelas para quem ela poderia ser mais evidente: os próprios LGBT e tod@s aqueles que se encontram ligad@s aos movimentos sociais que defendem outros grupos discriminados.
Que as lésbicas estejam envolvidas nessa luta, tanto em associações e grupos mistos como em colectivos especificamente lésbicos, afigura-se a muit@s ainda mais estranho. “As lésbicas não são discriminadas ou são muito menos discriminadas que os gays.” É o argumento muitas vezes repetido, tanto por “cidadãos comuns” como por activistas dos vários quadrantes. E os exemplos que pretendem comprovar o afirmado sucedem-se: “Duas mulheres podem viver juntas, que são só amigas”; “Duas mulheres podem andar na rua de braço dado que ninguém as vaia”. Esta afirmação, que por repetida se torna já irritante, esconde vários erros que a tornam mais um instrumento na discriminação acrescida que afecta as lésbicas.
Primeiro que tudo aceitar uma hierarquização das discriminações, sendo umas “sérias e graves” e as outras mais ou menos desculpáveis, é um erro inadmissível para tod@s quantos pretendem fazer cumprir os Direitos Humanos. Do mesmo modo que não há Direitos Humanos de primeira e outros de segunda, as várias discriminações devem ser encaradas como elementos que, no seu conjunto, formam aquilo a que poderíamos chamar a “gaiola da opressão”. Sexismo, racismo, homofobia, heterossexismo, classismo, discriminação por (d)eficiências, idade, aspecto físico, etc. São as barras da gaiola onde nos encontramos aprisionad@s e donde só nos libertaremos quando, não um mas todos, esses elementos interligados do mesmo sistema de opressão forem destruídos.
Convém recordar que somos com muita facilidade cúmplices de outras formas de opressão, ainda que sejamos vítimas de um tipo de discriminação e que devemos por isso usar as nossas características de privilégio para, estabelecendo redes de apoio mútuo, ajudar a luta de outros grupos.
Em segundo lugar a discriminação, seja ela pessoal, cultural ou estrutural, surge com a resposta àquilo que, sendo conhecido como diferente, é tido como constituindo uma ameaça à estabilidade do sistema vigente.
A discriminação sofrida pelos gays é mais visível do que a que afecta as lésbicas porque os homens são mais visíveis na sociedade que as mulheres. Mas não se pense que, por ser menos visível a discriminação sofrida pelas lésbicas, ela não existe. Num sistema social que apenas confere valor às mulheres acompanhadas por homens, as mulheres sem homem (nomeadamente as lésbicas) são invisibilizadas, nem existem. As lésbicas são, por serem mulheres, mais vulneráveis social e economicamente; que o digam as actuais taxas diferenciadas de rendimentos e de empregabilidade das mulheres. A nossa visibilidade social e mediática é assim boicotada pela herança de invisibilidade por que passaram as mulheres durante séculos e por uma maior exposição das mulheres às adversidades económicas e sociais.
Duas mulheres que caminham pela rua de braço dado não são toleradas porque a sociedade discrimina menos as lésbicas que os gays mas sim porque a sua sexualidade lhes é completamente negada. Não é suposto que, na ausência de um homem, possa haver sexualidade, por isso elas são tidas como inócuas. O falocentrismo patriarcal do sistema está tão fortemente arreigado, que reconhecer nessas duas mulheres a possibilidade de uma sexualidade vivida resulta impossível para a maioria dos observadores casuais.
A norma homem-mulher2 é apresentada pelo sistema heterossexista em que nos inserimos como “natural”, como a única hipótese legítima. Casar, ter filhos, representar um determinado papel social dentro e fora de portas, é o destino oferecido às mulheres. É tido como impossível que as mulheres não o queiram viver mas, por via das dúvidas, é melhor que essa “ameaça” fique bem afastada do reino das possibilidades de felicidade, guardada no baldio da imoralidade pelo fantasma da pária lésbica.
O não reconhecimento da existência da discriminação das lésbicas é em si, uma subtil e cruel forma de discriminação. Se ela não existisse viveríamos num mundo em que, a par com outros modos de relacionamento, os livros, filmes, músicas, programas televisivos e referências históricas, incluiríam imagens positivas de lésbicas, dos seus relacionamentos e modos de vida3.
A opressão das lésbicas é apenas uma das componentes da opressão mais vasta a que estão sujeitas as mulheres e, de um modo mais vasto, tod@s aqueles e aquelas que não se encaixam no modelo de pseudo-desenvolvimento económico e social que pretendem fazer vingar. Dentro da gaiola ainda estamos tod@s, lésbicas, gays, bissexuais e transgéneros mas também heterossexuais, assexuais, varia-sexuais, tri-sexuais, aindanãopenseinisso-sexuais, polimorfos.... até quando?4

1
E bissexuais e transgéneros e outras formas de sexualidade não heteronormadas.
2
A que poderemos chamar heterossexualidade obrigatória e estereotipada.
3
Imaginem durante um minutos, crescer num mundo onde uma das coisas mais importantes da vida, o vosso primeiro amor, não é um acontecimento maravilhoso, luminoso e alegre, que possam partilhar com toda a gente, mas sim um facto vergonhoso, de que nem se deve falar e que (quando surge) está relacionado com frustração, solidão e medo. Acabaram de imaginar um minuto na vida de uma adolescente que se descobre lésbica.
4
Também depende de ti a resposta.


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