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transexuais e outr@s aventureir@s do Género
Se na sociedade actual tratamos alguém por “ela”, estamos a identificar essa pessoa como mulher, mas se tratamos a mesma pessoa por “ele”, todo o seu valor como ser humano muda, independentemente da sua cultura de origem. Não há, portanto, dúvidas sobre a importância do uso da linguagem, e sobre como ela atribui ou retira estatuto social, nomeadamente aos grupos e indivíduos que mais são alvo de estranheza e discriminação.

No caso da população trans, a ignorância e a informação incorrecta são generalizadas. Há que esclarecer conceitos e prevenir a marginalização no uso da linguagem.

Clínicos, cirurgiões ou assistentes sociais não podem realmente “mudar o sexo” dos seus pacientes. Levá-los a acreditar nisso seria totalmente desonesto. Não podemos mudar homens biológicos para mulheres, ou mulheres para homens. O que os pacientes querem, quando pedem uma mudança de sexo, é que o clínico os ajude a reafirmar o sexo correspondente à identidade de género que psicologicamente já era a sua.

Usar o termo “mudança de sexo”, como fazem muitos médicos na área do tratamento da disforia ou ex-disforia de género, é ofensivo para muitos transexuais, dado que outorga expectativas biológicas sobre o paciente a que este não pode dar resposta (por exemplo, não é possível alterar as suas capacidades reprodutivas), logo, não deve ser forçado a viver sob as expectativas sociológicas correspondentes ao seu novo aspecto físico.

Afinal, para lá do biológico, o que é ser homem, o que é ser mulher? Somos resumíveis nestes extremos? Masculino e feminino não são conceitos absolutos ou “naturais”. São construções sociais a que nos adaptamos melhor ou pior, e acarretam diferentes estatutos. Portanto não é de estranhar que os termos Masculino-Feminino (M-F) e Feminino-Masculino (F-M) não descrevam nem resumam a experiência transexual, nomeadamente para os próprios. Estes termos, tal como o de “mudança de sexo”, revelam-se incorrectos quando aplicados à sua experiência.

Nós somos a nossa linguagem, e tornamo-nos nas nossas descrições. Assim, novos termos são, por vezes, necessários para relatar novas experiências. De forma a permitir descrever a experiência transexual de maneira a que estes se reconheçam nessa descrição, deveriam ser introduzidas novas palavras, específicas e especiais, e não formas emprestadas do modelo bipolar heterossexual, no qual apenas existem os extremos mutuamente exclusivos de “masculino” ou “feminino”, sem reconhecimento de todos os possíveis “meios termos” (ver caixa).

Mas, mesmo estes termos não se aplicam a todos os casos. Uma pessoa transexual que tenha alterado o seu corpo ficará naturalmente perturbad@ se for descrit@ como tendo um dia sido homem ou mulher, quando nunca se considerou como tal. Os transexuais nascem algures numa “terra de ninguém” cuja definição têm que preencher pelos seus meios, muitas vezes ao longo de toda a vida.

Algumas pessoas acreditam que mais categorias só levam a uma maior divisão numa subcultura já de si dividida. Outras acreditam que devemos estar todos sob a mesma bandeira, de forma a reforçar os direitos de todos os trans. Seja como for, a emergência de uma diversidade cultural trans, uma cultura que podemos até denominar como “Trans-Fluida”, demonstra que o antigo sistema bipolar de masculino e feminino simplesmente não pode ser aplicado a todos nós.

Viva, então, a transfluidez. A linguagem não deve ser utilizada para assegurar a nossa própria compreensão das experiências trans, mas sim para fortalecer, motivar, enriquecer, validar e valorizar a sensação única do bem-estar e auto-respeito destes aventureir@s do género.

Adaptado de A EXTENSÃO DOS DIAGNÓSTICOS TRANSEXUAIS, de Tracie O’Keefe


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