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Orgulhos

01-07-2000
por Eugénia Vasques

NO DIA 24, iniciou-se a primeira semana do Orgulho Gay, Lésbico, Bi & Transgender (LGBT ou GLBT consoante!). O evento começou na Comuna com a abertura da exposição Olhares (d)a Homossexualidade e com o lançamento do livro de Wendy Caster The Lesbian Sex Book, traduzido por Ana Pinheiro, com o título Manual da Sexualidade Lésbica (Zayas Editora).

Ao lançamento, no qual Teresa Cláudia fez a apresentação do livro (em forma de «dicionário»), seguiu-se um interessante debate subordinado ao tema «Homossexualidade e Cultura», dirigido por José Manuel Fernandes, da ILGA Portugal, com a participação de Fernando Cascais, universitário da área das Ciências da Comunicação, e de Guilherme de Melo, respeitado jornalista e escritor, que é quase uma bandeira de um certo modo cívico de intervenção homossexual.

Perguntar-se-ão os leitores como vem esta matéria, eminentemente informativa, aterrar numa crónica de teatro. A resposta demagógica seria: porque tudo o que acontece, na cultura, na política e na vida, interessa directamente ao teatro! Mas, ainda que assim pense, a verdade é que estas actividades, organizadas pela ILGA, Clube Safo, GTH/PSR, Grupo Lilás e pela Opus Gay, com o apoio da Câmara Municipal de Lisboa, levantaram algumas questões de ordem teórica e estética que, como se tem verificado ao longo dos anos 90, são hoje, mesmo entre nós, temas centrais da criação performativa e, pelo menos no que me diz respeito como crítica e pedagoga, matéria-prima do estudo das artes cénicas e das suas «dramaturgias».

A mais séria questão foi-me suscitada pela informativa, mas modesta, exposição da história da «homossexualidade» em Portugal ao longo do século XX. Nela se encontram espantosos exemplos do racismo homofóbico da parte de fascistas e comunistas, como Manuel Jorge Veloso, da RTP, que em 1975 assina uma lista de saneamentos cujos critérios (pontos 20 e 35) incluem, respectivamente, o «Frustrado Homossexual» e o «Homossexual Corrupto», ou o caso de Júlio Fogaça, militante «excomungado» do PCP pela sua (assumida?) opção sexual. Ali se podem relembrar, também, casos exemplares de democracia, como o de Helena Vaz da Silva que, em 1974, escrevia contra a «indignação» suscitada pelos «comunicados das prostitutas e dos homossexuais» ou o de artistas e produções que, mesmo depois do 25 de Abril, tiveram de enfrentar «Uma Democracia Limitada».

A questão é esta: não será um tanto inconsciente misturar autores e obras (explicitamente citadas ou referidas através da afixação da capa de livros e fotos) cujas assunções sexuais se não podem confundir, biograficamente, com os temas e motivos glosados nas suas obras e que são índices, significativos, de uma sexualidade que metaforiza a liberdade amordaçada?

Outra questão é a da confusão entre «teatro gay» e teatro feito a partir de obra de autor «gay». Exemplo desta confusão é a escolha de espectáculos teatrais representativos da «estética GLBT»: O Gato Que Chove, por exemplo, parte de textos de Césariny, mas não é uma espécie do «teatro gay»; As Criadas, de Genet, ou, sobretudo, O Ano do Pénis, também encenado por João Grosso, já pertencem ideologicamente a essa categoria.

É urgente um trabalho de conceptualização dos factos da Cultura se se quiser, seriamente, afirmar uma «comunidade» e uma «identidade» com expressão fora do «armário». A questão é política. Mas só o PSR (apesar das alianças que fez para o BE) ousou criar um Grupo de Trabalho que transcende a abstracção legalista dos debates parlamentares...


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