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5 Julho 2003, Porto, Portugal

Porto Pride 2003


Jornal Público

"Ser Gay É como Ser Louro Ou Ter Pés Grandes"
Por POR ANA CRISTINA PEREIRA (TEXTO) E NELSON GARRIDO (FOTO)
Segunda-feira, 07 de Julho de 2003

Gosta de se vestir "à toura". E exerce com mestria a arte de provocar o mesmo sexo, não fosse uma ninfa do meio "gay". Rui, nome artístico Amália, ou a exuberância das estrelas do célebre bar "Boys'r'us" a trazer brilho ao decadente Teatro Sá da Bandeira, anteontem à noite, em mais uma edição da festa "Porto Pride". Mas também a alegria de quem, sem pretensão artística, se sente livre para "sair do armário", para ser e estar - independentemente da sua orientação sexual.

Passa da meia-noite. Cartazes da Abraço abanam consciências um pouco por todo o recinto, bem guarnecido de um zanzanar multicolor. Jovens e menos jovens casais ensaiam manifestações de carinho. A noite promete dobrar-se em ondas de orgulho.

Rui, longos cabelos de um castanho a puxar para o louro, serve bebidas num dos bares apinhados. Passou do balcão para o palco do "Boys'r'us" há uns dois, três anos. Sempre sentiu "aquele entusiasmo de ser mulher", sem jamais querer deixar de ser homem. Experimentou vestir-se de fêmea e foi como se tivesse desdobrado asas. Descobriu a positiva vibração de quem se realiza; esta noite, mini-saia, grande decote, botas com salto de agulha, é um dos travestis que mais fazem furor. Há fila para o cumprimentar. E ele, vaidoso, distribui afecto. Feliz, sem dúvida. Todavia, e apesar dos dons que o atiram para a excentricidade, Rui, de 30 anos, mantém uma vida dupla.

Os tempos já estiveram piores, bem piores, reconhece o organizador João Paulo, do portal portugalgay.pt. Ainda há pouco, até fazer uma espécie de campanha alegre contra a discriminação como esta festa - para gays, lésbicas, bissexuais, "transgenders" e heterossexuais - era trilhar um caminho um tanto pedregoso. A primeira edição da "Pride", em plena Capital Europeia da Cultura, esteve mesmo assombrada por um elemento da Porto 2001 que se lembrou de, em Roterdão, "dizer que não tinha sentido fazer uma festa gay [na cidade] porque aqui não havia gays". E tanto não os havia, ri-se João Paulo, que o barco atracado no Douro, com três zonas musicais e um ritmo alucinante de espectáculos, acolheu mais de mil pessoas.

As celebrações arco-íris servem para animar a vida, como quase todas as ritmadas folias. Mas também "para mostrar que os gays existem e são iguais às outras pessoas", atira Carlos (nome fictício), a tomar um copo com uns amigos no velhinho Sá da Bandeira, recheado de gente electrizada pelos sons seleccionados por diversos DJs, com destaque para David Hernandez, do Club It Amesterdam.

"Ser gay é uma característica como outra qualquer, é como ser louro ou ter pés grandes", diz o jovem comunicólogo, que faz questão de manter a sua orientação sexual "despercebida no dia-a-dia". Não por que Carlos se sinta mal com ela. Mas porque ninguém tem nada a ver com isso. "A minha vida não é diferente, nem tem de ser diferente, nem permito que tentem que seja".

Não será pêra doce atirar ao ar a suposta normalidade. Uns avançam até ao limite da união às claras, não obstante os punhos que se lhes levantam. Como o "drag queen" Pikaxu, que trabalhava numa livraria. Ou mesmo a sua "cara-metade", que ganha a vida numa peixaria. Mas outros nunca chegam a "sair do armário".

Mulheres assumem-se menos

Neste universo, as mulheres parecem menos corajosas. No aceso Sá da Bandeira, bem temperado pelo assédio, o sexo feminino escasseia. Talvez porque as mulheres, arrisca a docente Laura, óculos escuros, vestes negras, estão mais marcadas pelas típicas questões de género. "Assumem-se menos, sofrem mais pressões [sociais] para serem mães, para formarem família" no sentido tradicional. "Uma vergonha!".

Quando Laura, aos 30 anos, casada, decidiu viver a sua orientação sexual não caiu o Carmo e a Trindade. O marido, compreensivo como poucos, até fez um poema dedicado a esse dia. Ao dia em que ela decidira "ser feliz". Não se empenhou num anúncio para a família toda, "não tinha de". Falou com os amigos mais próximos. Houve os que aceitaram e os que não. Agora, que já se sente plena, lamenta a clandestinidade forçada. É que algumas das suas namoradas mantêm "casamentos de máscara".

A discriminação atinge as mais variadas áreas. João Paulo conta algumas "estórias" que lhe vão chegando. Como a de um jogador de básquete "aterrorizado" com a hipótese de ser descoberto, logo descredibilizado. Portugal, lembra, não levou equipa aos GayGames, uma espécie de Jogos Olímpicos para homossexuais. "Até Timor teve lá [em Sydney] um representante!"

Passa bem das duas da manhã. A festa avança, madrugada dentro. Na certeza de que, se alguns corpos aquecerem em demasia, no Porto, ainda há hotéis que não alojam casais do mesmo sexo.


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